08/08/2007

Leite de pedra

Eu pensei no começo do ano, que pouca coisa poderia me surpreender do cinema. Na verdade ainda penso. Na época, eu considereva 2 os diretores-chave que me fizeram mudar o modo de pensar cinema, e de como fazer cinema. Woody Allen e Truffaut. E pensei que esses dois seriam os únicos, devido a falta de coisas novas, até que em Março, o grande Cinesesc nos presenteia com a mostra Cassavetes. Um cara desconhecido para mim até então, mas falado como o precursor do cinema independente americano. Como eu gostava, e gosto, de Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Jim Jarmusch, Gus Van Sant, entre outros, (menos o Todd Solondz) fui conferir.

Uma mulher sob influência, o primeiro dele que vi, me mostrou um cineasta diferente. Fui vendo outros como A morte do Bookmaker chinês, Faces e Amantes. Todos geniais.

Cassavetes era um ator, atuou em diversos filmes como O Bebê de Rosemary. Fazendo esses filmes, ele levantava verba para fazer os seus, e quando eu disse acima que ele era independente, quer dizer que isso deve ser levado ao pé da letra. Usava negativo que sobrava dos filmes que fazia, ou de produtores amigos; seus atores principais geralmente são ele e sua mulher, a genial Gena Rowlands, alugava muito pouco equipamento de luz, só quando fosse realmente necessário, a equipe toda trabalha de graça, sua casa (a mesma) foi locação de mais de três filmes seus. Era totalmente baixo-orçamento. E hoje, provavelmente seria caçado pelos sindicalistas.

O fato é que ele não precisava mesmo de muita coisa. Ele conseguia fazer um filme com pouco. O que me lembrou o Cão sem Dono, do Beto Brant. Que como já disse, não tem nenhuma atuação memorável, não tem nenhum apuro estético, nada. E mesmo assim consegue ser um filme, um filme melhor do que 80% dos lançamentos nacionais, certamente.

E isso me faz pensar numa questão de grandeza maior, que somente os deuses do cinema devem saber: o que faz um bom filme? Uma discussão desnecessária descorreria a partir dessa pergunta, e não chegaria a lugar nenhum. Por isso outra, sobre o mesmo tema, se torna pertinente pra mim: "Um filme começa quando começa, ou começa quando acaba?". Isso porque, o que faz um filme começar no seu começo, e ser bom, é sua realização: enquadramentos bem desenhados, figurinos críveis, atuações tocantes, roteiro fechado, luz bonita, movimento preciso, etc. Mas, como foi dito, um filme não precisa de tudo isso para ser bom. Não mesmo. As vezes ele só precisa dizer, ou melhor, mostrar, aquilo que o diretor pensa ou sente, e isso já nos basta, pois pensaremos nisso depois.

Então estou afirmando que um filme "mal realizado" esteticamente pode ser uma obra-prima? Sem dúvida.

PS: Os comentários estão sendo moderados, porque tem um cidadão causando um bug neles, não sei como, mas os poucos que os deixavam, podem continuar a deixar.

TOP 4 Cassavetes:

  1. Faces
  2. Amantes
  3. Uma mulher sob influência
  4. A morte do bookmaker chinês 

 

 

Escrito por pauloleierer em 23:37:15 | Link permanente | Comments (2) |
Comentário
1 - Eu acredito que de fato todo filme que nos marca, que temos um carinho especial, é porque vai além da tela, por algum motivo. Há maneiras de se avaliar os melhores filmes historicamente falando. Mas de maneira específica, um melhor filme para mim, para você, para qualquer um, depende de uma identificação pessoal que é sempre única e subjetiva. (Comentar)

Escrito por: Felipe Fonseca em 2007/08/09 - 14:31:19
2 - Concordo com o meu irmão!... Mas fiquei pensativa com o texto... É difícil a gente avaliar o que faz do filme um bom filme pq é sempre mto pessoal... Por mais que a gente, que faz cinema, pense bem na técnica, na questão narrativa, nos atores etc etc, acho que sempre tem o lado pessoal que domina. Pelo menos em mim. Bjos! (Comentar)

Escrito por: Cristina em 2007/08/13 - 22:26:40
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